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O perigo na era da desinformação sobre ‘chás milagrosos emagrecedores’

A colunista Raquel Magalhães, sommelière de chás, alerta sobre a venda e o consumo irresponsável de ervas voltadas para emagrecer

por Lud Hayashi

Nos últimos dias, foi manchete em diversos jornais e canais de televisão o caso da enfermeira de 42 anos que morreu devido à ingestão de um composto de 50 ervas, que tinha como informação no rótulo: “emagreça sem dieta”.

Atualmente, existe muita informação na internet. Escrita, copiada ou disseminada por qualquer pessoa que não tem o estudo sobre determinado assunto, vira “verdade”, viraliza e se torna referência.

Quem não se lembra da moda do hibisco como emagrecedor? Estudos já apontavam àquela época que para emagrecimento o hibisco não funciona. Entre outros compostos, é diurético e, em consequência, reduz a pressão. Imagina quantas pessoas com pressão baixa não tomaram uma dose elevada dessa infusão por um período muito longo, preparando de forma errada e de maneira concentrada, com o sonho de emagrecer rapidamente e passaram mal?

Essa infodemia (moda da informação) nos demanda muito cuidado e critério na escolha do que absorver e como. É radical demais pensar que, um chá preparado de forma correta, com produto de qualidade e aprovado para consumo, tomado com cautela e sem exageros, causará tantos danos à saúde de pessoas sem históricos de desequilíbrio/doença no corpo.

Estudar, buscar informação, consultar especialistas, saber a procedência do produto, se está aprovado para comercialização, etc. Afinal de contas, isso se resume ao nosso consumo, ao que vamos ingerir e alimentar o nosso corpo.

O chá e as infusões têm histórias e culturas de mais de cinco mil anos. No Oriente, onde a cultura desta bebida é muito presente até hoje, o chá faz parte da rotina diária das pessoas. Se pensarmos no radicalismo das últimas informações, países como Japão, Índia, Sri Lanka ou China, não teriam indivíduos vivos para contar.

É importante atentar-se para as propriedades e prescrições dos chás (Foto: Unsplash / Reprodução)
É importante atentar-se para as propriedades e as prescrições dos chás (Foto: Unsplash / Reprodução)

Cada pessoa reage de um jeito e o autoconhecimento é muito importante nessa identificação. Afinal de contas, se sou saudável, mas cítricos me deixam com a sensação de queimação no estômago, porque vou tomar bebidas com limão em jejum? Para passar mal? Só porque está na moda e alguém disse que emagrece?

Muitos me procuram para consultoria na criação de blends sem ter o mínimo de informação sobre o produto que querem lançar e sempre com o viés voltado ao emagrecimento. Afinal de contas, é o que vende, não é? Para constar, não aceito o trabalho, porque não condiz com o que eu acredito para o universo dos chás.

Curiosidade: você sabia que a alfazema foi aprovada pela Anvisa para uso como especiaria na bebida chá em dezembro de 2020? Estamos, sim, muito atrasados com a regulação do chá e das ervas em mercado nacional. Mas muitas pessoas não conhecem o mínimo.

Todos precisam entender que o chá é muito mais do que uma simples infusão, que se preparada de forma correta, ingerida com cautela, associada a exercícios físicos, a uma alimentação de qualidade e com as devidas orientações, faz, sim, bem para a saúde.

Principalmente pelo preço. Não sabem nem o que é matchá, mas pessoas vendem como emagrecedor, e então compram um produto que não sabem a origem por menos de 1/3 do valor e acreditam que fizeram um bom negócio e emagrecerão rápido.

O matchá é uma bebida de origem chinesa (Foto: Pexels / Thirdman / CreativeCommons)
O matchá é uma bebida de origem chinesa (Foto: Pexels / Thirdman / CreativeCommons)

Informe-se! Entenda que um composto de ervas super concentrado vendido em prateleira associado a uma fórmula mágica, que qualquer pessoa pode comprar, não foi feito para você e para sua necessidade. O ser humano é individual. Fórmula mágica não existe. Chá não faz milagres. Com informação só temos a ganhar!

Veja o chá de uma vez por todas como uma bebida que merece ser degustada, apreciada, por que é, simplesmente, uma bebida gostosa. Introduza em sua rotina pelo sabor (assim como fazemos com o vinho), como ingrediente no preparo de receitas, harmonize com alimentos e atividades do seu dia a dia. As chaves aqui são conhecimento e equilíbrio. Procure por produtos de qualidade, elaborado por especialistas que estudaram para isso.

Existem diversos estudos que apontam os benefícios da moringa (Moriga oleífera) para a nossa saúde. Mas seu uso indiscriminado (venda como remédio sem receita e prometendo milagres) fez com que sua venda fosse proibida aqui no Brasil. Nós é que perdemos.

Não vamos deixar que esse tipo de (des)informação seja manchete mais uma vez. Cada ano um desserviço. Não perca sua vida por isso!

Raquel Magalhães (Foto: Drica Monteiro)
Raquel Magalhães (Foto: Drica Monteiro)

Raquel Magalhães (@raquelmagalhaes) é sommelière de chá e terapeuta Ayurveda.

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