Lar Cultura A insanidade de trocar o real pelo virtual

A insanidade de trocar o real pelo virtual

por Lud Hayashi

“Caramba, Patricia, você não tem empregada mesmo? É sério? Faz um vídeo ensinando dicas para manter tudo limpo e organizado. Assisto muitos vídeos de limpeza e arrumação, mas minha casa vive uma bagunça!” Esse foi o comentário de uma seguidora em um vídeo onde conto que não tenho empregada há anos e dou várias dicas do que faço para manter a casa limpa e organizada.
Deixando de lado o fato de que a seguidora perguntou exatamente o que eu havia dito e pediu dicas que eu havia acabado de dar, vamos usar um pouco da imaginação para tentar entender o contexto. Nesse exercício, imagino uma pessoa que se levanta pela manhã – ou seja lá a hora que for – ignora a real situação de sua casa e, em vez de iniciar suas tarefas de lavar, limpar e organizar, acessa o YouTube para assistir outras pessoas lavando, limpando e organizando. Em que mundo isso faz sentido?

Redes sociais: incentivo ao comportamento zumbi com cada vez mais adeptos

Redes sociais: incentivo ao comportamento zumbi com cada vez mais adeptos

REUTERS/DADO RUVIC

Minhas redes sociais crescem um pouco a cada dia, de forma modesta e, segundo vários analistas, bem abaixo do que poderia. Mesmo sem que eu solicite, recebo frequentemente conselhos de experts no assunto me orientando a “criar uma personagem” e a mostrar “recortes da minha vida pessoal.” Segundo eles, as pessoas precisam “viver a minha vida” para poderem “sair da realidade delas”. Se eu “abrir câmera” em “momentos estratégicos” e “transformar” meu dia a dia em conteúdo, minhas redes vão “explodir”, garantem.
Explodir? E desde quando isso é bom? Enquanto não entendo porque isso seria positivo, os experts não entendem porque acho isso negativo. “Patricia, eles vão te acompanhar diariamente, vão copiar o que você faz, vão querer ter o que você tem, vão comprar tudo o que você indicar!”, asseguram os gurus das redes sociais. Dizem que eu preciso “engajar para faturar.” Essa, afinal, é a palavra-chave: faturar. E, para isso, vale tudo, inclusive incentivar um comportamento zumbi que a cada dia faz mais adeptos.
Volto a pensar na seguidora da casa bagunçada. Posso imaginá-la sentada, ao lado de um esfregão, um balde com água e diversos produtos de limpeza. Tudo comprado on-line por indicação de suas influenciadoras favoritas. Sua atenção está totalmente voltada para a tela do celular, pois sua musa da arrumação acaba de postar um vídeo novo e, desta vez, é sobre como deixar a cozinha brilhando. As horas passam e, de vídeo em vídeo, ela almeja ter uma casa igualzinha à da “influencer” do momento, enquanto evita de olhar em volta e ver que tudo continua na mesma. Louça por lavar, fogão por limpar, roupa por passar…

A vida real é muito chata mesmo, ainda mais para quem não tem aquele esfregão de R$ 400 –  que faz o mesmo que qualquer outro de R$ 40 – nem aquele robô que varre a casa sozinho, enquanto sobra mais tempo para fazer o que quiser, inclusive, para acessar as redes sociais e viver a vida de alguém que “transforma recortes do dia a dia em conteúdo.”

Fica cada vez mais difícil compreender como muita gente não consegue perceber que estamos caminhando a passos largos para uma sociedade irracional e que, em vez disso, classifica qualquer insanidade como “novo normal”. Não pode ser normal optar por deixar de viver sob a justificativa de estar buscando uma vida melhor. Não pode ser normal que as pessoas realmente acreditem que recortes de imagens cheias de filtro e produção, pagas por patrocinadores focados em faturar, representam a verdadeira felicidade. Não é normal, não é racional e não é saudável, mas é o que mais se vê. Diante de tudo isso, a pergunta que fica é: onde vamos parar?
Autora
Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumiremos que você está ok com isso, mas você pode cancelar, se desejar. Aceitar Saiba Mais

Política de privacidade e cookies

Adblock detectado

Por favor, apoie-nos desativando sua extensão AdBlocker de seus navegadores para o nosso site.